- Hi dad, oi mãe. Cheguei! – Apesar de meu português ser extremamente ruim, tento trocar algumas palavras com minha mãe, pelo o que eu sei ela sente falta do Brasil e tudo mais.
Uma vez fomos ao Rio de Janeiro, foi uma experiência boa, apesar de ser época de Carnaval. Havia muita gente na rua. Fazendo bagunça. E realmente isso não é legal.
As comidas típicas brasileiras me encantaram, não lembro ao certo os nomes, mas devo ter engordado uns 5 kg durante a viagem.
Enfim, após chegar ainda cheirando a álcool, não encontrei ninguém em casa. Deitei no sofá e peguei meu telefone. Havia um convite de amizade e algumas solicitações de jogos no Facebook.
Brian Thomson. 54 amigos em comum.
Deve ser conhecido. Deve ter me adicionado por engano. Nem me dei ao trabalho de abrir o perfil e aceitei, mal não faria. Ou não deveria fazer.
Acabei cochilando e acordando ao som de Muse. Uma das minhas bandas preferidas do mundo.
- Alô, onde você está? Foi abduzida?
- Estou em casa, deixa de drama. – Disse eu após ter meu estômago revirado em função da ressaca e tudo mais.
- Você viu a bagunça que está isso daqui? Meu Deus Becky, sorte meus pais não terem chegado ainda.
- E qual a minha culpa? Tentei acordar vocês pra arrumar.
- Calma esse coração, já vi que tem gente de mal humor.
- Não é mal humor. Aliás, um menino muito lindo que eu ainda não conhecia passou aí pra te ver, não conhecia.
- Como ele era?
- Um pouco mais alto que você – Meggy é mais alta que eu e que todas as minhas amigas. – moreno, olhos azuis, braços bem definidos, camisa xadrez, cheiro bom...
- Chega, não conheço. Deve ser algum admirador secreto. Vou arrumar essa bagunça, se quiser venha tomar banho de piscina aqui em casa de tarde.
- Já é 6 horas da noite, meu bem.
- Tanto faz. Tchau.
Fui até a cozinha e não havia nada pra comer. Ou quase isso. Resolvi ir ao Starbucks.
Coloquei a primeira regata que achei e continuei com o mesmo short de malha. Calcei meu vans preto que já é cinza e baguncei o cabelo para arrumá-lo. Irônico.
Sai de casa e ainda não havia escurecido. Resolvi ir de bicicleta.
- Droga! – Um dos pneus estava furado. Quanta sorte!
Fui andando mesmo, e tive a estranha impressão de que alguém estava me observando. Tipo em filmes. Aí eu pensei no que a minha mãe sempre diz: “você está vendo tv demais”, e resolvi deixar pra lá.
Cheguei lá, pedi um cappuccino simples, peguei uma revista e sentei em uma mesinha no canto. Quando já estava um tanto concentrada na leitura que falava sobre a polêmica da Miley Cyrus – que de fato pouco me interessava – alguém sentou na cadeira ao meu lado. Olhei somente para os pés e percebi que era um homem, de calça jeans clara e um vans azul. Resolvi baixar a revista e ver se conhecia.
- Oi! Posso sentar aqui? – Poderia ter certeza de que conheço esse menino de algum lugar. Deve ter seus vinte e poucos anos.
- Claro, claro! - Abri um sorriso tímido.
- Me chamo James. Lendo um pouco de fofoca? – Fiz cara de quem não entendeu e então ele apontou para a revista, dei uma risada constrangida e respondi:
- Ah, sim! Quer dizer, não que me interesse, é que sabe, nada melhor pra fazer.
- Entendo, é sempre bom saber o que as celebridades estão curtindo por nós.
- Verdade. – Mexia muito nos meus dedos quando estava com vergonha, e agora definitivamente eu estava fazendo isso. – Aliás, pode me chamar de Becky.
- Tudo bem, Becky. Sou novo na cidade, estou tentando fazer amigos. Se souber de alguma festa, ou quiser me apresentar alguns amigos.
- Ah, sim. Costumamos fazer festas na piscina, te convido pra próxima. Mas meus amigos são meio pirados, se você não se importa.
- Imagina, quando você me conhecer vai saber o quanto eu sou pirado também.
– E James abriu um sorriso que era lindo e cativante. E tinha algo que me fazia acreditar que eu já o conhecia.
Ficamos em um daqueles momentos constrangedores que nenhuma das duas partes sabe o que fazer ou falar. Duraram uns cinco minutos e ele quebrou o gelo:
- Qual seu café preferido aqui?
- Ah, isso depende do dia, sabe. Café não é minha bebida preferida.
- E qual é então?
- Vodca. – Não sei de onde isso surgiu, não gosto de fazer o tipo “bêbada louca”, mas funcionou porque fiz ele rir.
- Prefiro tequila. Vou pegar um café, você não vai comer nada, Becky? – A forma que ele pronunciou “Becky” me provocou de uma forma que quase não respondia mais por mim.
- Não quero nada não, sabe como é, ressaca. – E ele só sorriu e foi andando até o balcão.
Perdi-me em pensamentos comigo e James casando, passando nossa lua de mel em Paris. Pensei também em nossos três filhos juntos. Até ele chegar e me acordar de meu sonho estúpido.
- Pensando o que, princesa?
Aquele “princesa” fez eu quase cuspir o café que havia acabado de beber.
- Estava pensando sobre você, de onde você veio, afinal? – Achei minha frase ridícula, mas minhas expectativas sobre eu mesma não eram grandes.
- Vim dos Estados Unidos, Texas. Minha tia mora aqui. – Senti uma pontada de tristeza na frase, algo que me chamou a atenção.
- E veio por quê?
- Meus pais... – houve uma longa pausa e eu queria voltar no tempo e não ter perguntado aquilo. – Faleceram no início do ano.
- Eu sinto muito.
Houve outro silêncio que mais pareceu eterno, fora novamente quebrado por James.
- Vou ir para casa, minha tia não gosta quando volto tarde, bom te conhecer Becky, nos vemos por aí.
- Bom te conhecer também, tchau!
Confesso que fiquei chateada porque James não pediu meu telefone, meu facebook, instagram, endereço, cpf, conta do banco, NADA! Juro que fiquei esperando, mas não rolou. E eu fui pra casa louca para contar para o que eu chamo de “melhor amiga” tudo o que havia ocorrido.