5.2.16

Capítulo XXXI.

Cheguei à escola segunda-feira e eu ainda estava exausta. A escola inteira comentava sobre a festa da Meggy e eu ainda não havia falado com ela depois daquilo. 
- Amigaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. – Como costumava ser, minha amiga gritou quando me viu. 
- Meggy, preciso saber de uma coisa. Quem era aquele Brian que estava na sua festa? Preciso encontrar esse cara. – Eu disse. 
- O que? Vocês transaram? Finalmente você perdeu a virgindade? Ai. Meu. Deus. 
 - Não. – Quando disse que não ela fez uma expressão de quem não entendia nada, e eu pensei que talvez fosse melhor mentir. – Quer dizer, não transamos ainda. Quero o número dele e tal. E você está desatualizada, transei com um cara há um tempo. 
- E você não me contou por quê? Becky, eu quero saber todos os detalhes. E vamos conseguir o número desse Brian, sim. Lembra-se do nosso colega Mike? – Meggy falava tanta coisa ao mesmo tempo, que me confundia. 
- Lembro. – Eu disse, tentando pensar sobre com quem eu conseguiria o numero do Brian. Depois disso ela começou a contar que havia ficado com esse Mike na festa de sábado e nem lembrou mais dos meus problemas. Talvez era disso que eu havia esquecido sobre a nossa amizade, os problemas – ou não – da Meggy sempre foram mais importantes que os meus. Logo depois que as aulas começaram a diretora entrou na sala e disse: 
- A aluna Rebecca pode me acompanhar, por favor. – Logo todos começaram com risadinhas e eu comecei a pensar sobre o que tinha feito de errado nos últimos tempos. Conclui que não havia nada pra temer, mesmo que no fundo eu estivesse tremendo de medo. Quando saímos da sala a diretora me parou e começou a falar: 
- Rebecca, recebemos uma ligação de sua mãe dizendo que você deveria ir para casa imediatamente. Ela aconselhou que você fosse de ônibus. Tudo bem? 
Não estava exatamente tudo bem, deveria ser algo realmente sério, então só concordei, busquei meus materiais, avisei Meggy que iria para casa e corri para chegar logo. O que quer que fosse não poderia esperar.

7.9.15

Capítulo XXX.

Voltei para casa logo depois de conversar com James, ele me avisou que tinha algumas coisas que precisava resolver e eu não questionei, estava exausta.
Porém, o que não pude fazer ao chegar em casa foi descansar. Quando cheguei, meu pai e minha mãe estavam sentados na mesa me esperando com aquela expressão de: precisamos-conversar-você-está-ferrada.
Dei um oi meio constrangida e tentei subir as escadas despercebida, mas meu pai logo interrompeu meus planos de dormir o dia inteiro.
- Becky, precisamos conversar.
Como eu não pretendia prolongar muito aquela conversa, apenas virei-me de costas, ainda com o pé no primeiro degrau, e respondi:
- Fala.
- Amorzinho, você sabe que sempre procuramos deixar você livre em relação aos garotos. – Minha mãe começou, com aquela voz doce. - Mas nós precisamos que você não esconda nada de nós.
- Vou direto ao ponto, filha. Queremos que traga seu namorado aqui para nós o conhecermos. – Meu pai disse.
Soltei uma tosse um tanto inesperada. Desde quando eles sabiam que eu tinha um namorado? Por que esse súbito interesse em conhecê-lo? James nunca iria aceitar vir aqui. Um monte de coisas começou a passar pela minha cabeça, como por exemplo, o dia em que Ricky dormiu aqui em casa, provavelmente meus pais o viram. Será que eles pensam que Ricky é meu namorado?
- Namorado? Do que estão falando? – Disse em tom de acusação, tentando virar o jogo.
- Querida, nós somos seus pais, percebemos as coisas. Tentamos adiar isso ao máximo, mas você voltou a fazer coisas irresponsáveis, passou a noite fora. – Minha mãe tentou confortar a situação.
- Eu tinha uma festa na casa da Meggy e vocês sabiam disso. Irresponsável? Sempre fiz tudo o que vocês quiseram. Não vou trazer nenhum namorado aqui, porque eu não tenho um! – Subi correndo as escadas e bati a porta do quarto. Não foi a coisa mais madura a se fazer, mas eu fiquei realmente irritada.


1.8.15

Capítulo XXIX.

- O que você tá fazendo aqui? – Eu disse, contendo as lágrimas.
- Eu estava na festa e achei seu telefone por aqui. – James me abraçava forte e eu quis que aquele abraço nunca acabasse. Não disse nada por um tempo e James continuou. – Você não quer sair daqui? Vai fazer alguma coisa hoje?
Respondi que queria sair e logo estávamos no carro de James, rumo ao nosso esconderijo secreto. Aquele lugar com vista pra cidade inteira.

- Ainda estou tonta, mas não me lembro de beber muito. – Disse.
- Becky, senti sua falta. – James disse e aquilo fez com que meu corpo desejasse estar colada no dele. Em vez disso, segui o olhando e mantive a distancia. Estávamos dentro do carro e eu queria manter minha decisão de terminar.
- Eu também senti, você sabe. Eu só estava tentando... – A vontade de chorar tomou conta de mim e eu não pude conter, senti as lágrimas queimando no meu rosto. – Eu só tentei fazer as coisas certas, tentei arrumar minha vida. É tão difícil pra mim. Eu não entendo.
- Desculpa. – James disse, e quando olhei pra ele, uma lágrima caia do seu rosto também.
- Não precisa pedir desculpas, não é sua culpa. Eu acho que estou doente, talvez eu vá morrer. Eu não sei, e isso machuca ainda mais. Se ao menos houvesse alguma explicação. – Nesse momento eu soluçava e tenho quase certeza de que minhas palavras não estavam nem um pouco claras.
- Você não está doente, não fala isso. – Nesse momento James me puxou para o peito dele, acariciando meu cabelo e chorando junto comigo. Foi um momento que durou uma eternidade. Mesmo com toda a tristeza envolvida, foi extremamente bom estar ali com ele.
Quando finalmente paramos de chorar, olhei pra ele e tive a certeza de que não queria mais essa distância. Tudo o que eu queria era estar com ele o máximo de tempo que eu pudesse. Se eu fosse morrer, ou se eu fosse ter apagões pra sempre, tudo o que eu queria era estar com James.
- Você me aceita de volta? – Eu disse, sorrindo e ainda fungando do choro.

James beijou meu nariz e sorriu. Nem precisou dizer, eu sabia. Estávamos novamente juntos e aquilo me fez chorar novamente.

27.1.15

Capítulo XXVIII.

Quando comecei a beijar Brian minha visão começou a escurecer e eu conhecia aquela sensação. O mundo abrindo aos meus pés. Tentei agarrar-me  a ele para ver se aquela sensação parava. Não adiantou.

Acordei com uma tremenda dor de cabeça, olhei em volta e estava aparentemente em um banheiro. Aparentemente porque mais parecia um quarto. Havia algumas pessoas deitadas e um cheiro ruim que eu não sabia decifrar naquele momento. Fui me levantando e caminhei em direção à porta, abri com cuidado e sai. Finalmente ar puro.
Fui procurando algum rosto conhecido, mas lembrei de que na festa da Meggy eu realmente conhecia poucos. Decidi ir para casa, já que minha cabeça ainda doía e tudo a minha frente girava.
Quando cheguei em casa, fui direto para meu quarto e dei falta de um detalhe importante: meu celular.
- Droga. Droga. Droga. – Fiquei dizendo por minutos enquanto procurava algum remédio para dor de cabeça. Quando finalmente achei, desci até a cozinha para beber água e encontrei minha mãe sentada a mesa cheia de papéis.
- Oi. – Disse.
- Oi filha, como estava a festa? – Minha mãe sabia que passaria a noite fora, apesar de ter sido difícil convence-la. Ela achava que eu estava doente por conta dos apagões.
- Estava boa. Quer dizer, Meggy sempre faz festas ótimas! – Sorri tentando parecer normal.
- Amor, eu dei uma olhada nos seus exames, os peguei hoje pela manhã. Tudo pareceu perfeitamente normal! Levaremos ao médico na segunda-feira, mas acredito que esteja tudo bem, querida.
- Que bom. – Não sabia se aquela informação era boa. Eu tinha realmente alguma coisa, e se os exames não mostrassem nada, não haveria diagnóstico, e, portanto não haveria cura. – Que bom mãe. Vou ir para casa da Meggy ajudar com a bagunça, beijos.
Sai quase correndo para pegar meu celular, não que eu fosse ter alguma ligação importante, mas era uma questão quase de necessidade. Quando eu deixei a casa de Meggy a porta estava aberta, então para entrar não foi difícil. Só precisei girar a maçaneta. Fui procurar meu celular no último lugar que me lembro de estar. A cozinha.
- Onde está essa droga? – Falei alto comigo mesma.
- Tá falando do seu telefone? – Uma voz masculina atrás de mim disse, e eu dei um pulo de susto.

Eu conhecia aquela voz. Quando virei tive certeza, corri para seus braços e abracei James.

3.1.15

Capítulo XXVII

- Tive cinco apagões desde que eles começaram. – Eu disse.
- Quais as semelhanças ou ligações entre eles? Situações que podem ter os ocasionado, como acordou depois, qualquer informação é relevante.
- No primeiro eu andava pelo corredor e apaguei, tive um sonho estranho e acordei no banheiro da escola sem saber como acabei parando lá. O segundo eu estava em uma loja, apaguei e também tive um sonho estranho. Acordei no meu quarto. No terceiro eu apaguei na rua com um amigo, e acordei na casa dele. Não lembro de nada nesse meio tempo.  – Dei uma pausa tentando lembrar. – No outro eu apaguei quando fui visitar minha amiga no hospital e acordei na rua. E o último eu apaguei na rua conversando com um desconhecido e acordei na manhã seguinte.
Escondi algumas informações do médico, como por exemplo a de que James foi violento comigo logo antes de eu apagar na terceira vez. Que o homem desconhecido na verdade estava me ameaçando. Que em várias vezes nesses apagões quem estava falando comigo – em sonhos ou não – me dizia para dormir. Tentei ser o mais honesta possível, mas se eu contasse toda a verdade acabaria em um hospício.
Depois que contei a minha mãe sobre esse problema, ela marcou médico para o dia seguinte. Eu estava satisfeita em ir, pois acreditava que tomando alguns remédios resolveria minha vida. Não deixei minha mãe entrar junto na sala de consulta, já imaginava as possíveis expressões de espanto e preocupação que ela teria ao me ver contando aquilo.
- Você tem outros sintomas como náusea, dor de cabeça, febre? – O médico me tratou com a maior simpatia do mundo, acredito que por ele conhecer minha mãe eu tinha isso a meu favor.
- Não, somente os apagões. – Disse.
- Bom, vou pedir alguns exames para que possa dar um diagnóstico preciso. – O médico anotou algumas coisas em um papel. – Entregue a sua mãe e ela saberá o que é, assim que tiver o resultado de todos, volte aqui.
Passei o resto da semana fazendo exames, e alguns ficariam prontos somente semanas depois. Fizeram de tudo, da cabeça aos pés, e eu estava extremamente cansada daquilo, já que desde então os apagões não haviam mais aparecido.
Até duas semanas depois de eu ir ao médico, em uma festa na casa de Meggy. 

30.12.14

Capítulo XXVI

Quando ouvi o menino dizer que seu nome era Brian, comecei a lembrar de onde eu o conhecia. Do meu sonho. Isso não era possível, pois eu nunca havia visto ele em nenhum outro lugar senão no meu apagão.
- Nos conhecemos de algum lugar? – Perguntei.
- Não, acho que somos só amigos no Facebook. – Ele disse ainda sorrindo.
- Ah bom. – Dei um sorriso sem graça e olhei para os lados procurando Meggy.
- Sabe onde tem? – Brian disse e apontou para bebida em minha mão.
- Acho que na cozinha, provavelmente na geladeira. – Sorri tentando ser engraçada.
- Me mostra onde é? – Ele disse.
- Mostro. – Pronunciei essa palavra com o maior desprezo possível, eu não queria mostrar nada para esse menino, mas meus pais me ensinaram a ter educação.
Fomos andando e passamos por várias pessoas, nenhuma delas era Megan ou Joe, o que me deixou mais irritada. No caminho um menino derramou bebida no meu vestido novo, e eu já estava a ponto de me trancar no quarto de Meggy e só sair quando a festa estivesse acabada, mas finalmente chegamos à cozinha.
Peguei bebida para Brian. E para mim. Eu estava definitivamente precisando. Nós estávamos talvez no único cômodo vazio da casa. Brian se encostou à mesa e começou a falar alguma coisa que eu não prestei muito atenção, minha cabeça estava lá no meu sonho onde ele era meu namorado e toda aquela loucura.
- Becky, está me ouvindo? – Ele se aproximou e disse.
- Oi. – Bebi metade da vodka em meu copo e fiz cara feia depois. – Estou ouvindo.
- Não está achando essa festa chata? – Brian disse.
- Sim. – Balbuciei. E ele era o motivo.
- Não quer ir para outro lugar? – Eu entendi as intenções dele, mas quis bancar a difícil.
- Onde? – Bebi mais um gole.
- Não sei, algum quarto por aí. – Ele sorriu.
Minha cabeça já estava girando e eu não tinha a mínima capacidade de pensar, então disse:
- Não. Você acha que vai me conhecer hoje e eu vou sair transando com você?
Ele hesitou por um segundo e se aproximou ainda mais, deixando o hálito de álcool próximo a minha boca dizendo:
- Acho.

No instante seguinte eu só o senti se aproximando ainda mais e me beijando. Eu queria saber onde estava com a cabeça de deixar isso acontecer. Há alguns dias eu nunca sairia beijando qualquer cara, e agora estava tudo de ponta cabeça. Estou carente, eu sei. Estou precisando beijar, eu sei. Estou sendo uma galinha, eu sei. Eu não faço a menor ideia do que estou fazendo da minha vida, eu sei.

26.12.14

Capítulo XXV

Passei alguns dias calmos, Meggy saiu do hospital e até hoje procuram respostas sobre o que ocorreu. Eu nunca mais ouvi notícias de James, conversei com Ricky algumas vezes porque tínhamos alguns trabalhos da escola para fazermos juntos e minha vida estava entediante. Eu já sentia falta de toda aquela adrenalina de sair com James escondida tarde da madrugada.
Quando o médico liberou Meggy de todos os remédios, ela resolveu dar uma de suas festas épicas. Convidou metade da cidade, ou a parte jovem dela, a parte que realmente interessava. Fazia algum tempo que eu não ficava com ninguém e já estava carente, então achei a ideia da festa genial.
Fiquei na casa dela preparando tudo desde cedo, mas levei roupa e pouco antes da hora marcada tomei um banho e me vesti. Coloquei um vestido nude meio decotado que Megan havia me ajudado a escolher. Me sentia uma princesa, dificilmente usava vestidos mas Meggy insistiu dizendo que era uma “ocasião muito especial”.
Começou a chegar tanta gente que eu não conhecia a maior parte. Logo Joseph chegou e eu me sentia tranquila por ver um rosto conhecido.
- Becky, você está linda! – Joe disse enquanto me entregava um copo de alguma bebida.
- Obrigada, pena que não posso dizer o mesmo! – Adorava rir da cara de Joe, e me senti muito feliz por ter a amizade dele novamente.
Começamos a conversar quando senti Meggy me puxando pelo braço e me levando para a porta da festa.
- Amiga, olha aquele gato! Você conhece? Não fui eu quem convidou. – Meggy disse me apontando para um menino que estava de costas.
- Não consigo reconhecer alguém de costas, Megan.
- Tudo bem, fica aí, vou pegar mais bebida e você descobre quem é, vai ver que é lindo! – Meggy disse e saiu cumprimentando algumas pessoas e sorrindo.
Fiquei um pouco brava por Meggy ter me tirado da companhia de Joe e me levado para ver algum estranho qualquer. Até que ele virou e eu senti que aquele rosto era familiar, mas não conseguia sequer lembrar de onde. Fiquei encarando para ver se lembrava e quando percebi ele olhava também e sorria, corei na hora e baixei a cabeça. Quando levantei novamente ele vinha em minha direção, eu queria matar Meggy naquele momento.
- Oi. – O menino lindo com cheio bom e com olhos perfeitamente maravilhosos, disse.
- Oi. – Soei muito empolgada e quis morrer.
- Não conheço muita gente da festa, quer dizer, não vou a muitas festas, aí já que você estava me olhando resolvi vir aqui. – O menino disse isso com uma expressão muito, mas muito safada.
- Ah, sim, não conheço muita gente também. É que você parece familiar sabe, estava tentando lembrar. – Sorri ainda nervosa.
- Que pena, achei que tinha me achado bonito. – Ele riu e eu também.
- Então, foi a Meggy que te convidou? – Tentei mudar o assunto.
- Sim, e pelo visto convidou bastante gente. – Ele olhou ao redor.
- É verdade, ela sempre exagera. – Sorri. – Aliás, qual seu nome?

- Meu nome? – Ele sorriu. – Brian.

15.12.14

Capítulo XXIV

Eu estava deitada em meu quarto, chorando,  pensando em James e no quanto foi horrível ter terminado com ele. Quer dizer, eu nunca havia terminado com ninguém, mas foi o pior término de todos.
Sempre imaginei que encontraria o cara certo e as coisas correriam muito bem, como nas comédias românticas. Acontece que na vida real a história é diferente. Eu não sei explicar exatamente o motivo pelo qual terminei meu namoro, que nem era tão namoro assim. Apenas pensei que seria melhor voltar a normalidade, nem que para isso eu precisasse tomar decisões radicais.

Coisas que não deveriam ter acontecido mas aconteceram:
1. Apagões (Ainda estão ocorrendo)
2. Encontrar alguém que goste de mim (Sempre foi improvável)
3. Brigar com todos meus amigos (Dificilmente eu brigava com qualquer um deles)
4. Meggy quase morrer (Eu ser a possível culpada)
5. Eu perder a virgindade (Mas não menos importante)
Para ter minha vida de volta eu precisava resolver cada um desses itens. Comecei pelo primeiro.
...

UM
- Mãe, preciso falar com você.
- Fale, amor.
- Preciso ir ao médico. - Eu disse de forma que não parecesse dramática, o que não adiantou. Minha mãe veio até mim colocando a mão sobre a minha testa como se eu tivesse febre.
- O que você tem, amorzinho? - Antes que eu pudesse responder minha mãe hesitou por um momento, e pude ver uma ruga de preocupação se formar em sua testa.  - Não me diga que está...
Antes que ela terminasse a frase eu já havia entendido, minha mãe pensou que eu estava grávida. Cheguei em um ponto sem volta, minha mãe nunca haveria pensado nisso em outras épocas. Eu realmente havia mudado.
- Não. - Gritei.  - Estou tendo apagões, estou sonâmbula, não sei ao certo. Sei que preciso de ajuda.
Minha mãe suspirou aliviada e pegou o telefone fazendo algumas ligações,  mesmo que ela fosse médica,  sempre me levou em algum outro pediatra ou especialista. Dizia que não se deve misturar as coisas. Contei a ela meus sintomas e ela deu alguns palpites, mas disse que eu teria que esperar a consulta.

DOIS
Quando conheci James minha vida começou a dar errado.  Mesmo que ele tenha sido a única pessoa que se interessou por mim de verdade,  ainda parecia errado estar com ele. Terminar foi difícil, houve choro, questionamentos e portas de carro batendo. Foi necessário. A dor deve ser sentida, li uma vez.
Deitei no meu quarto ao som de Muse e chorei.  Lembrei dos poucos momentos em que estive com James, foram todos únicos,  especiais. Passou pela minha cabeça o dia em que ele fora agressivo,  porém eu apaguei e nem sei se de fato isso foi real.
Me sinto protegida com ele, e pensar que não poderia mais abraçá-lo quando tudo estivesse ruim me fez chorar ainda mais.  A forma como as coisas ocorreram é o que mais me chateia, não tivemos tempo de sair mais, nem de irmos a almoços de família constrangedores, nem de enchermos as redes sociais de fotos em momentos felizes. Foi tudo muito rápido, e o sentimento de saber que poderíamos ter vivido muito mais me fazia querer correr de volta para os braços dele.
Esse era o item mais fácil da lista, ou o mais difícil. Pensar em James.

TRÊS
Liguei 3 vezes até Joseph me atender, dessa vez decidi estar preparada para todos os puxões de orelha.
- Alô. - Eu disse.
- Becky, me desculpa. Por favor. - A voz de joe soava baixa e triste,  e foi diferente do que eu imaginava ouvir.
- Tudo bem. Só quero a amizade de vocês de volta, é pedir muito?
Ouvi Joseph chorar do outro lado da linha.
- Está tudo tão difícil, Meggy realmente precisa de você. Ela não fala sobre outra coisa.
- Preciso de vocês também. Como ela esta? Quem fez aquilo? - Comecei a chorar também.
- Ela está bem, a medida do possível. Não lembra de nada desde que estava chegando em casa, só lembra de apagar.  Mas diz que tem certeza de que não foi você.
"Apagar."
Não é só comigo.
- Posso visita-la? - Eu disse.
-  Sim, vou ao hospital daqui uma hora, me encontre lá.

QUATRO
Cheguei ao hospital e Joseph me autorizou a entrar para ver Megan. Assim que entrei Joe nos deixou a sós.
- Oi. - disse num sussurro.
Megan não respondeu e apenas chorava.
Quando me aproximei ela começou a falar.
- Eu sei que não foi você.  Me desculpa por pensarem que foi. Você é minha, entende? E as coisas que são minhas não tentam me matar. - Meggy riu enquanto limpava algumas lágrimas. - Sabe a pior parte? Eu não lembro quem foi o filho da puta que fez isso. Se ao menos eu lembrasse.
- Não tem problema.  - Eu disse. - O que importa é que esta bem.
- Bem? Olha a cicatriz que se formou na minha barriga,  como vou usar biquíni agora?
Instantaneamente abracei Megan. Eu tinha minha melhor amiga de volta.

CINCO
Quando sai do hospital estava abalada por ter chorado tanto,  mas era um choro de felicidade. Havia um último item para resolver.
Liguei para Richard e pedi que me encontrasse na praça perto do hospital.  Não demorou para que ele chegasse e quando chegou veio me cumprimentar com um beijo, eu virei o rosto e comecei a falar assim que pude.
- Eu sei que transamos noite passada, e foi incrível. Mas eu não estou no momento de relacionamentos, aliás eu trai alguém ficando com você.  Me perdoe,  mas precisamos ser amigos.
Ricky ficou parado alguns segundos, e quando eu já estava a ponto de sacudi-lo, disse:
- Tudo bem,  eu espero você.
- Eu não estou pedindo que espere. - Eu estava exausta e não queria discutir.
- Mas vou esperar. - A expressão dele me desafiava.
- Não espere. - Gritei.
Richard riu e eu ri também. Não tinha sentimentos por ele como tinha por James,  mas ele havia sido o meu primeiro.
- Amigos? Ele disse.
- Amigos!
...

Terminei o dia pensando no quanto tudo havia dado certo, e que no fim das contas era preciso apenas determinação.  Deitei tranquila e dormi como não fazia há dias. Foi necessário,  pois os dias que seguiram eu não teria boas noites de sono.

7.12.14

Capítulo XXIII

Peguei meu celular e o liguei. James havia deixado algumas mensagens. Me bateu um arrependimento por ter o traído. Mesmo que não tivéssemos nada sério, não sabia até que ponto éramos fiéis um ao outro. Comecei a sentir uma forte dor de cabeça e lembrei da bebida. Pensei em Richard, como ele saiu de minha casa? Será que foi a escola? Qualquer coisa que exigia pensar piorava minha dor de cabeça, e deitei novamente.
Ouvi a porta do quarto bater e disse para que entrasse. Era minha mãe:
- Aquele era o menino com quem você anda saindo? Você faltou a escola hoje... Tenho notícias de Megan, querida. - Minha mãe falou tanta coisa que não consegui colocar as ideias no lugar.
- Como está Meggy?
- Ela está bem, disse hoje a polícia que não foi você que tentou matá-la. Isso é bom, amor. Está se sentindo bem?
- Sim. - Fora a náusea, a dor de cabeça e a dor nos quadris. - Estou bem.
Minha mãe saiu e eu respondi James.
"Ola."
Ele respondeu quase que instantaneamente.
"Oi, gatinha."
"James, nós somos o que?" Impulso. Sempre agindo por impulso, pensei.
"Como assim?" Não entendi a dúvida, a pergunta foi bem clara.
"Namorados, ficantes, peguetes, amigos, amizade colorida?" Escrevi e quase gritei quando enviei.
"Nunca conversamos sobre isso, mas considero você minha namorada."
"Precisamos conversar." Eu enviei.
E lá vamos nós para uma D.R. Só de pensar em contar a James da traição meu corpo gelava. Porém decidi que a verdade sempre arruma uma forma de aparecer. Combinamos de nos encontrar novamente na rua atrás da minha casa, porém dessa vez a tarde.
Entrei no carro de James e ele sorriu. Um sorriso sincero que me fez querer chorar. Ele me deu um beijo e foi dirigindo. Fomos até quase a saída da cidade, no lugar onde tínhamos visão de toda ela. Comecei a pensar no quanto somos pequenos perto da imensidão das coisas, do universo. Essa é só mais uma cidade, dentro de tantas. Eu sou só uma pessoa, dentro de tantas. E mesmo assim parece que tudo de ruim acontece comigo. James parou o carro e descemos, sentamos na grama um de frente pro outro, e ele começou:
- O que quer conversar?
- Primeiro eu quero saber mais sobre você. Sabemos muito pouco um sobre o outro, e se queremos realmente ter algo sério, acho que deveríamos nos conhecer melhor. - Falei cheia de certezas.
- Está certa. Não sei o que quer saber exatamente. Você sabe uma das coisas mais importantes sobre mim, sobre meus pais, não conto isso a ninguém. - James soou triste.
- Eu sei. - Segurei a mão dele. - Quem são seus amigos?
- O pessoal da Fashion's. Não tenho muitos aqui.
De repente comecei a pensar que eu não queria descobrir nada. Não agora. O legal de estar com alguém é ir conhecendo ela aos poucos. Abracei James e comecei a chorar.
- O que foi? - A voz dele me confortava.
- Precisamos terminar. - Eu disse por impulso.

30.11.14

Capítulo XXII.

Tirei a camiseta de Richard sem ao menos pensar, e comecei a fazer carinho em suas costas. Eram extremamente lisas e estavam quentes. Ele pressionava cada vez mais o corpo contra o meu e eu estava totalmente entregue a ele naquele momento. Ricky foi tirando cada peça de roupa minha com a maior delicadeza possível, fui me entregando cada vez mais. Nunca havia ficado nua na frente de nenhum garoto, morria de vergonha até na frente das minhas amigas. Mas ali, naquele momento, eu não sentia vergonha. Richard soube me deixar totalmente a vontade e de alguma forma eu sabia o que fazer.
Sempre fantasiei esse momento. Minha primeira vez. Na hora tudo é diferente. Não sei dizer se foi melhor ou pior que eu pensei. Foi diferente. Senti coisas que eu nunca senti antes, uma mistura de vários sentimentos. Ricky sabia o que fazer em cada momento, soube fazer eu me sentir única, o que me deixou muito mais tranquila. Senti dor nos primeiros momentos mas isso foi aliviado por um enorme prazer e um sentimento de que finalmente eu havia me livrado dessas correntes que me prenderam por tanto tempo.
Quando acordei nessa manhã, só queria que minha vida ficasse normal novamente. Agora, pouco antes do dia acabar - 23:47 - o dia estava longe do normal.
Richard puxou um preservativo da mochila e por um instante pensei que aquilo poderia ser programado. Mas lembrei que uma vez Joseph disse que todo o homem andava prevenido. "Nunca se sabe", disse. Fizemos alguns barulhos e eu esqueci que estava em casa, e que meus pais poderiam estar no quarto quase ao lado. Tudo foi muito automático e eu não consegui controlar praticamente nada. Meggy sempre dizia que se você não faz barulho você não sente prazer. Definitivamente eu senti prazer.
Quando acabamos, puxei os lençóis para me cobrir e pousei minha cabeça no peito de Richard. Acabei dormindo.
...
Abri meus olhos ainda um pouco sonolenta, e toquei com a ponta dos dedos o lençol vazio ao meu lado. Sentei-me um pouco e vi o relógio, que marcava dois ponteiros para cima. Era meio-dia, ou meia-noite? Ainda estava confusa. O papel sobre a mesinha dizia “Estarei de volta daqui a pouco”. Coisa que eu muito duvidava. O cheiro de perfume e suor ainda estava no ar. E meus pelos ainda sentiam o toque macio e ao mesmo tempo gostoso de James. Nunca estive tão vulnerável quanto naquele momento. Olhei ao redor, minhas roupas estavam todas lá no chão, jogadas. Quando tentei levantar-me para pegar a mais próxima, não tive forças. Deitei novamente e sorri. Finalmente havia acontecido. Finalmente. 
Parei para pensar e um sentimento de pânico me invadiu. Eu havia transado com Richard, não com James. 

29.11.14

Capítulo XXI

Sinceramente, há momentos em que eu penso que nasci com alguns neurônios a menos. Esse momento era um deles. Convidei um estranho para beber comigo na minha casa. Richard chegou as oito. Eu havia colocado um short e uma blusinha, arrumado um pouco o cabelo e calçado chinelos. Ele chegou com uma blusa verde, uma calça bege e um tênis azul. Estava extremamente bonito, e eu percebi que nunca havia reparado o quão atraente era. Subimos direto pro quarto. Ele abriu a mochila e mostrou: 1 vodka, 1 tequila, 2 limões, sal.
- Você caprichou, ein. - Eu sorri, meu humor já estava melhor.
- Acho que é suficiente. - Richard riu.
Começamos com a vodka, busquei dois copos e já havia bebido metade. O mundo já começava a girar e eu estava achando tudo muito engraçado. Richard contava umas histórias de quando era criança, às vezes umas histórias de terror.
- Você já namorou? - Perguntei.
- Já. Só problema, a menina me largou quando eu repeti de ano. - Richard ria. - E você?
- Não. Só problema.
- É bom, sempre alguém para transar. - Ele riu. No mesmo instante eu corei, nunca gosto quando falam sobre sexo, nunca sei como agir. Apenas assenti com a cabeça e dei um sorriso amarelo. Richard percebeu.
- Nunca transou? - Ele perguntou. O álcool já fazia efeito, e eu me abri com ele.
- Não. Quando minhas amigas começaram a transar eu estava ainda beijando alguns caras diferentes, achei que deveria esperar o cara certo. Não apareceu.  Acho que é uma grande bobagem, afinal. No fim das contas  vai ser só mais um. - Disse e bebi meio copo, fiz careta e sorri.
- Mas é o primeiro, deve ser especial. Se o cara gosta de você ele vai se esforçar para que dê certo, acho que é por isso. - Ricky coçou a cabeça e eu quis o abraçar.
- Eu não sei, está tudo fodido. - Soltei uma risada que era mais histérica do que engraçada. - Eu não tentei matar a Meggy, você sabe disso, não sabe? Quer dizer, algumas vezes eu tive vontade. Quando ela ficou com o Matty, o menino que eu fui apaixonada desde o 5º ano, mas a vontade passou depois que ele foi embora da escola. Quando ela disse que eu era ridícula por ser virgem, durante uma briga, eu quis matá-la por uma semana. Mas eu nunca faria isso, nunca. Entende? Agora as pessoas me olham e acham que eu fiz isso, idiotas. - Desabafei.
- Entendo. - Nesse momento Richard se aproximou e pegou minha mão. Meu corpo estremeceu. - Como ela está?
- Bem, eu acho. Ouvi falar que ela melhorou, mas ninguém dá muitas informações para a suposta assassina. - Sorri e bebi mais um gole.
Ricky só assentiu com a cabeça e se aproximou de mim. Colocou uma mão no meu rosto, e fez carinho. Me senti nas nuvens e queria que aquele momento nunca acabasse. Esqueci de tudo, absolutamente. Ricky se aproximou e me beijou, de forma delicada e meiga. O álcool ajudou e quando vi já estávamos  deitados em minha cama no maior amasso.

24.11.14

Capítulo XX.

Cheguei a conclusão de que pouco sabia sobre James. Quem eram seus amigos? O que ele gostava de comer? Quem era o seu cantor preferido? Nas vezes que conversamos descobri muito pouco, e nosso relacionamento foi tão doido que não deu pra descobrir todos esses mínimos detalhes que você supostamente deve saber sobre seu namorado. Aliás, nunca nos definimos como namorados, ou peguetes, ou ficantes, ou amigos coloridos. Nada. Sempre deixamos tudo rolar numa boa, mas isso talvez já tivesse passado dos limites.
Começo a manhã de segunda-feira pensando em qual ligação poderia haver entre James e toda essa loucura em minha vida, decido que não existe nenhuma. Faz tudo parte da minha imaginação. Eu não sei até onde o que eu vivo é real, e penso que poderia estar sonhando. Realmente Megan teria sido agredida? Eu teria encontrado um homem ontem a noite que me disse coisas que só de pensar me davam náuseas? Até onde tudo era real?
Limpei o rosto com água corrente e limpei todos esses pensamentos junto. Ir a escola traria um pouco de normalidade a minha vida. E era isso que eu queria agora, minha vida de volta. Pensei que a melhor saída era fazer tudo voltar ao normal, nem que pra isso eu precisasse dar um gelo em James por um tempo.
Tomei um copo de refrigerante e comi um pedaço de bolo, me arrumei como sempre fiz e fui para frente de casa esperar a carona. Lembrei que eu não tinha carona pois havia brigado com Meggy, e tudo voltou a realidade novamente. Chamei minha mãe e ela me levou.
Cheguei a escola e todos olhavam para mim como se eu tivesse lepra ou tivesse com uma roupa dos anos 50. Era tudo real. Real. Esses pensamentos não saiam da minha cabeça. Fui direto para sala de aula, vi Joseph e Chloe sentados juntos conversando, quando entrei Joe me olhou e virou o rosto. Sentei na última cadeira afim de não ser notada por ninguém, mas não funcionou.
Richard chegou logo depois de mim e colocou a mochila do lado da minha classe.
- Oi. - Ele disse e deu um sorriso. Eu apenas retribuí o sorriso e comecei a mexer no celular. Havia inúmeras notificações e algumas não eram assim tão boas. Pessoas publicaram mensagens de ódio na minha linha do tempo e eu comecei a perceber que realmente achavam que eu havia tentado matar Meggy.
- Como você está? Fiquei sabendo do que ocorreu. - Richard disse com voz de pena.
- Como acha que estou? Se você está insinuando que eu fiz aquilo com ela, pode parar. - Eu disse sem paciência.
- Não acho que foi você, Becky. Não tem jeito de quem faria isso. Deve estar sendo difícil para você... - Rick terminou a frase com um tom de voz baixo.
- Sim. - Eu realmente não queria conversar sobre meus enormes problemas com um estranho.
- Você pode confiar em mim.
- Olha só, não tenho porque confiar em ninguém nesse mundo, ok? Ninguém se importa - Minha voz soou mais cansada do que brava.
-  Eu me importo. Lembra quando sentei ao seu lado? Você estava assim também, e terminamos amigos, por que está tão fechada hoje? - Que menino insistente, pensei.
- Porque está tudo dando errado. Você quer que eu confie em todo mundo que aparece? Está tudo desmoronando, Richard. - Disse essas palavras sem ao menos refletir sobre.
- Você quer sair hoje? Comer alguma coisa? Beber, quem sabe?
- Não quero sair. - Pensei na ideia. - Vá para minha casa a noite, digo que faremos trabalho para escola. Leve bebida, muita bebida.
- Combinado. - Ele abriu um sorriso.
Logo depois a professora chegou e as aulas correram normalmente. Fora o fato de que eu não pude fazer muita coisa na escola já que em todos lugares que eu ia havia pessoas cochichando e me olhando.

23.11.14

Capítulo XIX.

- Eu preciso ir agora. - Disse a James, que me olhou sem entender o porquê minha instantânea pressa para ir embora.
- Por que vai agora? Pensei que passaríamos algum tempo juntos.
- Eu sei, mas meus pais estão preocupados comigo depois de tudo que aconteceu, então preciso ir pra casa logo.
- Entendo, mas quero ficar mais com você Becky, por que não vamos para minha casa? - James disse segurando minha mão.
- Eu não posso! - disse quase em um grito.
- Você parece assustada, e eu entendo por tudo o que você passou hoje, mas afastar quem gosta de você não vai adiantar gatinha.
- Eu só quero ir embora James, quero dormir, descansar...
Antes que eu pudesse terminar de falar, James puxou meu braço e me deixou com o rosto colado no dele.
- Eu preciso de você, Becky. - Ele falou em um tom que eu não consegui compreender, era quase um sussurro e havia algo triste em sua voz.
Tirei a mão dele do meu braço e fui abrindo a porta:
- Amanhã nos falamos, preciso ir.
James não respondeu e arrancou o carro assim que eu fechei a porta.
Escorei-me em um muro e fiquei pensando no dia infernal que eu tive, nada parecia fazer sentido e eu estava me sentindo perdida em meio a tudo aquilo.
Como estava escuro resolvi voltar pra casa, ainda limpando as lagrimas e tentando me acalmar. Quando fui dobrar a esquina um homem me puxou e colocou a mão tapando minha boca. Tentei gritar e me bater, mas foi em vão. Ele me levou para um beco perto da minha casa, me colocou contra a parede e disse:
- Becky, se quando eu tirar a mão da sua boca você não gritar, eu prometo não te machucar.
Ele foi tirando lentamente a mão da minha boca e eu soltei um grito de socorro, então ele colocou a mão na minha boca novamente e me deu um tapa no rosto. Senti a minha pele queimar e comecei a chorar.
- Eu só quero fazer perguntas menina, você pode facilitar? Não quero te bater de novo, você quer? Fique quieta, vou tirar a mão da sua boca novamente. Dessa vez eu não gritei, decidi que não seria a coisa mais inteligente a fazer já que não havia ninguém por perto, somente ratos e baratas.
- Você pode me responder algumas perguntas? – Ele disse.
Balancei a cabeça dizendo que sim.
- Tudo bem, tudo bem. De onde você conhece James?
Boa pergunta, na verdade, conheci James de uma forma tão inusitada que faltaram palavras para explicar isso a aquele homem estranho.
- O conheci aqui na cidade, em uma cafeteria. - Eu disse. - Você pode me falar seu nome? - Tentei agir de forma amigável.
- Não posso, eu que faço as perguntas aqui. Quem é Megan?
- Megan é minha melhor amiga. - comecei a ligar os fatos e percebi que aquele homem poderia ser o que estava no hospital logo cedo.
- O que você sabe sobre James?
- Que ele trabalha na Fashion's, tem 23 anos, mora com a tia, perdeu os pais no início do ano... - Mais uma vez fui preenchida por um pensamento ruim de que eu conhecia muito pouco de James.
- Mais alguma coisa? - O homem disse instigando.
- Não, o que acha que eu saberia? - A tentativa de colher informações era válida.
- Nada. – O homem olhou vagamente para baixo. - Nada. Você tem notado algo estranho na sua vida?
- Muitas coisas, mas eu não vou contar para você, já que você não está me contando nada.
- Tem certeza que está em posição de exigir algo? Você é muito ingênua, mocinha. Deveria aprender a não confiar tanto nos outros. – Ele olhou para os lados avaliando a situação. - Tudo bem, você deve descobrir as coisas sozinha, não vou tirar esse prazer de você. Meu único conselho é que seja mais esperta, pois pelo que entendi, está com sérios problemas. - O homem disse.
- Eu não lhe disse isso.
- Você não precisou dizer, Becky.
Após ele dizer isso, fui apagando lentamente, senti minhas pernas ficarem tontas e me sentia sufocada. Minha visão apagou de vez.

Acordei no meu quarto com o sol na minha cara, olhei para o relógio e faltava 1 minuto para o relógio despertar. Estava exausta e tinha um longo dia pela frente.

17.11.14

Capitulo XVIII.

Cheguei à recepção do hospital e um homem alto, com aparência de 20 anos, de cabelos cacheados e pretos, me atendeu. Em qualquer outro momento eu teria o achado lindo, mas meu foco agora era outro. Parei na frente do balcão e ele disse com um sorriso no rosto:
- Em que posso lhe ajudar?
- Vim ver a paciente Megan Trusman. – Minhas mãos suavam frio.
O homem checou algo no computador e disse:
- Qual o seu parentesco com ela?
Não havia pensando nisso, o policial disse que eu não deveria visitar Megan, a única alternativa que achei talvez não fosse a mais inteligente, mas útil.
- Somos namoradas, mas ninguém sabe, se puder manter em sigilo. Megan se importa muito com isso, acha que a mãe dela não vai aceitar, sabe como é. – Tentei soar convincente e ao mesmo tempo preocupada.
- Entendo, entendo. Qual seu nome?
- Felícia Jones.
- Tudo bem. – O atendente imprimiu um adesivo com meu nome e me disse o número do quarto. – Tem apenas um acompanhante com ela, pelo que consta aqui.
Fui até o quarto, e quando abri a porta vi alguém de capuz segurando uma injeção ao lado da cama de Megan. Agi por impulso e disse:
- Quem é você?
A pessoa se assustou e virou para mim, era um homem, não pude reconhecer, mas me soava familiar. Ele permaneceu em silêncio e eu disse novamente:
- Quem é você?
Dessa vez quase que num sussurro ele disse:
- Não te interessa, Becky.
- Como sabe meu nome? – Disse assustada.
- Você veio ver sua amiga Megan, não veio? Faça isso.
Nesse instante olhei para Meggy que estava desacordada, e esqueci-me da presença daquele homem no quarto. Fui perto dela e pude ver alguns hematomas em seus braços e arranhões no rosto. Peguei a mão dela e comecei a lembrar de quando éramos amigas. Meus olhos já estavam cheios de lágrimas e não pude conter que elas caíssem.
Meggy me fez passar tanta vergonha nessa vida que eu poderia escrever um livro, sempre me dizia que tudo era extremamente necessário para que eu tivesse histórias para contar para meus netos e filhos. Posso me lembrar como se fosse hoje dela dizendo “eu vou ser madrinha dos seus 9 filhos, Becky”.
Agora eu via minha amiga e nossa amizade fragilizadas, e eu tive um medo terrível de perder ambas as coisas.
Meus pensamentos se desfizeram quando o homem atrás de mim tossiu. Olhei para ele, que sorriu e disse:
- Está na hora de dormir, princesa.
...
Acordei na rua de trás da minha casa, peguei o celular no meu bolso e era 11:57 da noite, perto da hora que combinei de me encontrar com James.
Comecei a lembrar do momento em que estive no hospital e entrei em pânico. Tentei colocar meus pensamentos no lugar mas não tive muito tempo já que ouvi o carro de James chegando.
Entrei no carro e o abracei tão forte que tive medo de machuca-lo. James foi me beijar e eu recuei:
- Desculpe, não consigo fazer isso agora. – Eu disse.
- Tudo bem. Fiquei sabendo o que houve com a Megan, quer me contar sua versão? – Ele disse com uma voz suave.
Expliquei tudo o que havia ocorrido, exceto a parte que eu havia ido para o hospital, foi tudo tão estranho que não quis parecer louca na frente de James.
Depois de vários minutos explicando tudo, ele disse:
- Vai ficar tudo bem, princesa.
Gelei meu corpo e arrepiei cada pelo que existia nele. Aquela palavra. Eu já a ouvira antes.

“Princesa.”

5.11.14

Capítulo XVII

Chegamos em casa e meus pais estavam me tratando como se eu fosse uma doente mental. Eu entendo a tentativa de fazer eu me sentir bem, mas estavam se tornando irritantes. Chegamos quando já estava anoitecendo, eles haviam passado em um supermercado e comprado algumas porcarias. Depois de comer me tranquei no quarto e ainda sentia certa tontura.
Liguei para Chloe e ela não me atendeu, fazia dias que não nos falávamos, mas a situação pedia uma trégua nessa birra que estávamos fazendo. Resolvi ligar para Joseph:
- Joe, alo. – Eu disse.
- Oi Becky. – A voz de Joseph era séria e não me passou nenhuma simpatia.
- Ficou sabendo da Meggy?
- Quem não ficou sabendo, não é? Por que me ligou? – A voz dele piorava a cada palavra.
- Achei que a situação pedia uma trégua dessa briga inútil. – Tentei uma reconciliação, mas percebi que estava muito enganada.
- Quem não garante que você não fez isso? Até ouvir o que a Meggy tem a dizer, não sei de nada. Você sempre teve inveja dela, Becky. Sempre quis ser melhor que ela quando na verdade isso é impossível. Você começou essa briga com todos nós por motivo nenhum, eu era seu amigo até dias atrás quando você enlouqueceu. Eu não sei o que está fazendo de sua vida, sua mãe me ligou, inclusive, querendo informações sobre com quem você está andando, pelo que parece anda saindo escondida de casa todos os dias. – Houve uma pausa e meu coração batia acelerado. – Não sei com que tipo de gente você se meteu, e o que anda fazendo, acho que precisa de ajuda, Becky. Espero que você não entre num caminho sem voltas, e se você fez isso com a Meggy, você vai pagar. – Joseph desligou.
Comecei a chorar tentando abafar o barulho no travesseiro. O meu amigo, meu melhor amigo, me acusando de ter tentado matar a minha melhor amiga. Isso não podia estar acontecendo. Nunca teria feito isso com Meggy, apesar de estarmos brigadas nunca desejei nada de ruim a ela. Sentia como se o chão embaixo dos meus pés estivesse se abrindo. Estava sem nenhum amigo, e pior do que isso eles estavam me odiando.
Lembrei-me de James e aquilo me acalmou, o abraço dele era a única coisa de que eu precisava no momento. Liguei para ele, depois de algumas chamadas ele atendeu:
- Oi gatinha. – Ele disse com uma voz amigável.
- Oi. – Não pude conter o choro de ouvir uma voz que não me odiava.
- O que houve? Por que está chorando? – James parecia preocupado.
- A Megan, aconteceu algo ruim. Eu não posso explicar pelo telefone, preciso de um abraço. – Estava soluçando e não sabia se James iria entender minhas palavras.
- Tudo bem, tudo bem. Vai ficar tudo bem, Becky. Quer me encontrar agora?
- Eu não sei, acho melhor de madrugada, pode ser?
- Pode sim, nos encontramos no mesmo lugar de ontem, meia noite? – James disse.
- Tudo bem. – Nesse ponto eu havia parado de chorar. – Eu vou desligar, preciso fazer uma coisa agora.
- Ok, fique bem, beijos.
 ...
Desci as escadas e meus pais – que estavam conversando – pararam de falar imediatamente. Percebi que era sobre mim e apenas revirei os olhos.
- Eu vou encontrar a Chloe e o Joseph.
- Tem certeza que é bom sair agora? – Meu pai disse.
- Tenho.
- Se cuide querida, volte logo. Você está muito vulnerável hoje, pegue algum dinheiro, amor. – Minha mãe disse tirando dinheiro da carteira e me entregando.

Liguei para um taxi e ele demorou cerca de 10 minutos para chegar.

- Eu quero ir para o hospital, por favor. – Disse ao motorista.

2.11.14

Capítulo XVI.



Tudo aconteceu muito rápido e eu não soube explicar exatamente as coisas que aconteceram. Minha cabeça girava e o policial não estava nem um pouco feliz com a minha possível “falta de cooperação”.
- Vamos menina, não tenho o dia inteiro. Como você achou a... – O policial olhou em uma folha. – Megan Trusman.
Eu ainda tremia e o policial me olhava com uma feição nada agradável.
- Eu recebi um telefonema, de um número desconhecido... – Disse tentando colocar as ideias no lugar.
- Você já nos disse isso, checamos o celular e não havia nenhuma ligação nas últimas 24 horas. Pense melhor, Rebecca.
- Eu já pensei! – Gritei com uma voz que soava cansada. – Já pensei demais, eu quero sair daqui. Vocês não podem me manter aqui por 3 horas seguidas, é desumano.
- Desumano é você mentir! – O policial colocou as duas mãos em cima da mesa se inclinando para mim. – Comece a nos contar como você chegou ao apartamento de... – Houve um tempo para pensar e eu gritei:
- Megan! O nome dela é Megan! – Imaginei qual era o problema daquele homem em decorar nomes.
- Tudo bem, você não quer colaborar. O que viu quando chegou?
- Eu já disse. – Eu estava com fome, exausta, nervosa e extremamente irritada.
- Fale novamente. – A voz do policial também parecia cansada, mas quem estava dificultando as coisas era ele.
- Eu vi Meggy desacordada, havia muito sangue por todos os cantos. Satisfeito?
- Não, quero detalhes Rebecca. Isso não é o seu blog, é vida real.
- Para começar, não tenho um blog. Segundo, havia sangue pelo corredor da casa, e ela estava virada de costas para a porta. Vi que ela estava desacordada, pois gritei inúmeras vezes seu nome e ela não respondeu. – Minha voz começou a ficar embargada, contive as lágrimas e continuei – Corri para perto dela e virei-a para mim, chequei o pulso e senti que ela estava viva. – Hesitei um pouco.
- Continue. – A voz do policial parecia mais calma agora.
- Peguei o celular e disquei para a polícia, foi quando vi a faca ao lado dela, e a marca em sua barriga. Corri para pegar um pano e fiquei segurando contra o ferimento. O resto você já deve saber.
 - Certo, certo. Fale mais sobre a suposta ligação. – A dúvida na voz dele me irritava.
- Me ligaram dizendo que Megan corria perigo, a voz era masculina e estava nitidamente transtornada.
- Tem ideia de quem seja? – Ele disse.
- Não. Quando vou poder ir embora? Quando vou poder ver Meggy?
- Rebecca, você está sob investigação, seria bom que não se aproximasse da sua amiga. Ela está se recuperando, como havia lhe falado. Quero que vá para casa agora e evite sair da cidade. Obrigada.
- Vocês acham que eu fiz isso? – Eu disse assustada.
- Nenhuma hipótese deve ser descartada, ainda temos que pegar o depoimento da Megan, mas isso somente quando ela acordar.
Sai da sala de interrogatório exausta e encontrei meus pais na sala de recepção. Abracei minha mãe e nós duas chorávamos muito.
- Vai ficar tudo bem, querida. Vamos para casa! – Minha mãe disse com voz doce limpando minhas lágrimas.
Fomos para casa e eu ainda precisava de respostas. Ainda não acreditava no que havia acontecido e faria de tudo para descobrir.

31.10.14

Capítulo XV.

Cheguei em casa 06h30minh da manhã, consegui deitar antes que meus pais tivessem acordado. Meu coração ainda pulava dentro do meu peito e eu não conseguia parar de sorrir. Tudo com James havia sido tão perfeito, e eu me sentia nas nuvens.
Logo que cheguei em casa ele me chamou para conversar.
“Chegou bem gatinha?”
“Cheguei sim, e você?”
“Eu estou me arrumando para ir trabalhar.”
“Nossa, vai parecer um zumbi.” Eu disse.
“Quase isso hahaha Vou deixar você dormir, beijos.”
“Beijos”
Mesmo que James tivesse me “deixado” ir dormir, não consegui. Passei horas me revirando na cama

...
Era domingo e eu passei o dia lendo e comendo porcarias. Não conversei mais com James desde então, o que de fato me preocupava. Estava no meu quarto e ouvi meu celular tocar. Número desconhecido.
- Alô. – Eu disse.
Houve um silêncio e comecei a ouvir alguém chorando.
- Alô! Quem tá falando? – Eu disse em tom assustado.
- Becky? – A voz estava longe e eu não conseguia reconhecer, sabia apenas que era um homem.
- Sim. Quem está falando?
- Você é amiga da Meggy? – A voz continuava estranha para mim, comecei a pensar que era algum tipo de pegadinha.
- Era. Quem tá falando? – Comecei a ficar irritada.
- Me ajuda. Desculpa, Becky. Eu... Eu não queria... – A voz era desesperada e chorava.
- O que está acontecendo? Exijo respostas! – Eu disse.
A voz continuou chorando e eu praticamente gritei ao telefone:
- Isso é uma pegadinha? Não tem graça, não tem! Vou desligar se você não me disser o que está acontecendo.
- A Megan corre perigo. – A voz ficou mais irritada, havia parado de chorar. Tinha um tom ameaçador.
Quando tentei continuar falando, a ligação foi finalizada. Comecei a entrar em pânico, suava frio e não sabia o que fazer. Ouvi uma batida na porta e dei um pulo na minha cama.
- Filha, você estava gritando ao telefone. Está tudo bem?
- Sim, está. – Minha voz não era muito convincente, mas foi o melhor que consegui.
Minha mãe saiu e eu resolvi ir procurar Megan. Sentia que algo estava errado. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo, coloquei um short jeans rosa e uma blusa de flores, uma sapatilha vermelha e sai.
O apartamento em que Meggy morava não era muito longe de minha casa, cerca de uma quadra de distância. Fui andando, cheguei e toquei o interfone.
Bl.1 Ap. 204.
Ninguém atendeu.
Os pais de Megan eram representantes comerciais, geralmente estavam viajando. Comecei a ficar realmente preocupada.
Vi uma velhinha entrando no condomínio e segurei a porta. Entrei.
Subi as escadas o mais rápido que pude, em alguns momentos subi dois degraus por vez. Meu coração dava pulos.
Cheguei à porta do apartamento e bati duas vezes. Na terceira resolvi girar a maçaneta. Estava aberta.
Fui entrando e vi algo que começou a arrepiar meu corpo. Havia sangue no chão. Fui andando procurando por Megan em cada cômodo.
- Meggy, cadê você? Meggy me responde. – Gritava tentando obter alguma resposta.
Fui até o quarto dela, abri a porta o mais rápido que pude. Fiquei parada. Tonta. Comecei a ter náuseas e não sabia o que fazer. Megan estava no chão, deitada em uma pequena poça de sangue. Desacordada.