15.12.14

Capítulo XXIV

Eu estava deitada em meu quarto, chorando,  pensando em James e no quanto foi horrível ter terminado com ele. Quer dizer, eu nunca havia terminado com ninguém, mas foi o pior término de todos.
Sempre imaginei que encontraria o cara certo e as coisas correriam muito bem, como nas comédias românticas. Acontece que na vida real a história é diferente. Eu não sei explicar exatamente o motivo pelo qual terminei meu namoro, que nem era tão namoro assim. Apenas pensei que seria melhor voltar a normalidade, nem que para isso eu precisasse tomar decisões radicais.

Coisas que não deveriam ter acontecido mas aconteceram:
1. Apagões (Ainda estão ocorrendo)
2. Encontrar alguém que goste de mim (Sempre foi improvável)
3. Brigar com todos meus amigos (Dificilmente eu brigava com qualquer um deles)
4. Meggy quase morrer (Eu ser a possível culpada)
5. Eu perder a virgindade (Mas não menos importante)
Para ter minha vida de volta eu precisava resolver cada um desses itens. Comecei pelo primeiro.
...

UM
- Mãe, preciso falar com você.
- Fale, amor.
- Preciso ir ao médico. - Eu disse de forma que não parecesse dramática, o que não adiantou. Minha mãe veio até mim colocando a mão sobre a minha testa como se eu tivesse febre.
- O que você tem, amorzinho? - Antes que eu pudesse responder minha mãe hesitou por um momento, e pude ver uma ruga de preocupação se formar em sua testa.  - Não me diga que está...
Antes que ela terminasse a frase eu já havia entendido, minha mãe pensou que eu estava grávida. Cheguei em um ponto sem volta, minha mãe nunca haveria pensado nisso em outras épocas. Eu realmente havia mudado.
- Não. - Gritei.  - Estou tendo apagões, estou sonâmbula, não sei ao certo. Sei que preciso de ajuda.
Minha mãe suspirou aliviada e pegou o telefone fazendo algumas ligações,  mesmo que ela fosse médica,  sempre me levou em algum outro pediatra ou especialista. Dizia que não se deve misturar as coisas. Contei a ela meus sintomas e ela deu alguns palpites, mas disse que eu teria que esperar a consulta.

DOIS
Quando conheci James minha vida começou a dar errado.  Mesmo que ele tenha sido a única pessoa que se interessou por mim de verdade,  ainda parecia errado estar com ele. Terminar foi difícil, houve choro, questionamentos e portas de carro batendo. Foi necessário. A dor deve ser sentida, li uma vez.
Deitei no meu quarto ao som de Muse e chorei.  Lembrei dos poucos momentos em que estive com James, foram todos únicos,  especiais. Passou pela minha cabeça o dia em que ele fora agressivo,  porém eu apaguei e nem sei se de fato isso foi real.
Me sinto protegida com ele, e pensar que não poderia mais abraçá-lo quando tudo estivesse ruim me fez chorar ainda mais.  A forma como as coisas ocorreram é o que mais me chateia, não tivemos tempo de sair mais, nem de irmos a almoços de família constrangedores, nem de enchermos as redes sociais de fotos em momentos felizes. Foi tudo muito rápido, e o sentimento de saber que poderíamos ter vivido muito mais me fazia querer correr de volta para os braços dele.
Esse era o item mais fácil da lista, ou o mais difícil. Pensar em James.

TRÊS
Liguei 3 vezes até Joseph me atender, dessa vez decidi estar preparada para todos os puxões de orelha.
- Alô. - Eu disse.
- Becky, me desculpa. Por favor. - A voz de joe soava baixa e triste,  e foi diferente do que eu imaginava ouvir.
- Tudo bem. Só quero a amizade de vocês de volta, é pedir muito?
Ouvi Joseph chorar do outro lado da linha.
- Está tudo tão difícil, Meggy realmente precisa de você. Ela não fala sobre outra coisa.
- Preciso de vocês também. Como ela esta? Quem fez aquilo? - Comecei a chorar também.
- Ela está bem, a medida do possível. Não lembra de nada desde que estava chegando em casa, só lembra de apagar.  Mas diz que tem certeza de que não foi você.
"Apagar."
Não é só comigo.
- Posso visita-la? - Eu disse.
-  Sim, vou ao hospital daqui uma hora, me encontre lá.

QUATRO
Cheguei ao hospital e Joseph me autorizou a entrar para ver Megan. Assim que entrei Joe nos deixou a sós.
- Oi. - disse num sussurro.
Megan não respondeu e apenas chorava.
Quando me aproximei ela começou a falar.
- Eu sei que não foi você.  Me desculpa por pensarem que foi. Você é minha, entende? E as coisas que são minhas não tentam me matar. - Meggy riu enquanto limpava algumas lágrimas. - Sabe a pior parte? Eu não lembro quem foi o filho da puta que fez isso. Se ao menos eu lembrasse.
- Não tem problema.  - Eu disse. - O que importa é que esta bem.
- Bem? Olha a cicatriz que se formou na minha barriga,  como vou usar biquíni agora?
Instantaneamente abracei Megan. Eu tinha minha melhor amiga de volta.

CINCO
Quando sai do hospital estava abalada por ter chorado tanto,  mas era um choro de felicidade. Havia um último item para resolver.
Liguei para Richard e pedi que me encontrasse na praça perto do hospital.  Não demorou para que ele chegasse e quando chegou veio me cumprimentar com um beijo, eu virei o rosto e comecei a falar assim que pude.
- Eu sei que transamos noite passada, e foi incrível. Mas eu não estou no momento de relacionamentos, aliás eu trai alguém ficando com você.  Me perdoe,  mas precisamos ser amigos.
Ricky ficou parado alguns segundos, e quando eu já estava a ponto de sacudi-lo, disse:
- Tudo bem,  eu espero você.
- Eu não estou pedindo que espere. - Eu estava exausta e não queria discutir.
- Mas vou esperar. - A expressão dele me desafiava.
- Não espere. - Gritei.
Richard riu e eu ri também. Não tinha sentimentos por ele como tinha por James,  mas ele havia sido o meu primeiro.
- Amigos? Ele disse.
- Amigos!
...

Terminei o dia pensando no quanto tudo havia dado certo, e que no fim das contas era preciso apenas determinação.  Deitei tranquila e dormi como não fazia há dias. Foi necessário,  pois os dias que seguiram eu não teria boas noites de sono.